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quinta-feira, setembro 29, 2005

O software já vem incompleto!

Pense sinceramente sobre uma coisa: O prédio onde você tem um apartamento (para o qual você trabalhou muito para juntar dinheiro) desaba, do dia para noite, como já aconteceu antes (Palace 2, é isso?). De um minuto para o outro você perdeu não só sua casa, mas anos de sua vida, trabalhando para ter aquele dinheiro. Perdeu todos os fins de semana quando abriu mão de ir ao parque com sua namorada e ficou terminando relatórios para entregar na segunda feira porque eles eram essênciais para sua empresa e sua carreira. Os outros moradores do prédio podem ter perdido tudo isso e mais ainda, a vida de uma pessoa queria. Homens perderiam suas esposas. Famílias perderíam seus filhos. Vidas inteiras devastadas em um segundo. Não é difícil imaginar isso, certo, afinal de contas já aconteceu e não faz muito tempo.

Alguns dias depois as autoridades são enfáticas: a culpa é comprovadamente da construtora. Você e os outros moradores desafortunados decidem então abrir um processo judicial contra a empresa que lhe vendera o apartamento, por sua imprudência e falta de ética. Parece justo que vocês recebam de volta o dinheiro tão brigado que levaram anos para juntar e que, literalmente, virou pó quando tudo desabou. Parece que a justiça irá colocar tudo no seu devido lugar. Mas então o advogado da construtora mostra-lhes uma cópia do contrato que vocês assinaram e ela contém uma cláusula como esta:

"NA EXTENSÃO MÁXIMA PERMITIDA PELA LEGISLAÇÃO APLICÁVEL, EM NENHUMA HIPÓTESE A CONTRUTORA OU SEUS FORNECEDORES SERÃO RESPONSÁVEIS POR QUAISQUER DANOS ESPECIAIS, INCIDENTAIS, INDIRETOS, PUNITIVOS OU CONSEQÜENCIAIS (INCLUINDO, SEM LIMITAÇÕES, DANOS POR: POR LUCROS CESSANTES, PERDA DE BENS MATERIAIS OU OUTRAS, INTERRUPÇÃO NOS NEGÓCIOS, DANOS PESSOAIS, PERDA DE PRIVACIDADE, FALHA NO CUMPRIMENTO DE QUALQUER OBRIGAÇÃO (INCLUSIVE DE BOA FÉ E COM CUIDADOS RAZOÁVEIS), NEGLIGÊNCIA E QUALQUER OUTRA PERDA FINANCEIRA OU DE QUALQUER NATUREZA) RESULTANTES DO OU DE QUALQUER FORMA RELACIONADOS COM O USO OU INABILIDADE NO USO DA MORADIA ADQUIRIDA OU DOS SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO OU O FORNECIMENTO OU FALHA NO FORNECIMENTO DE SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO OU DE OUTRO MODO SOB OU COM RELAÇÃO A QUALQUER DISPOSIÇÃO DESTE CONTRATO, MESMO QUE A CONSTRUTORA OU QUALQUER FORNECEDOR TENHAM SIDO ALERTADOS SOBRE A POSSIBILIDADE DE TAIS DANOS.

LIMITAÇÃO DE RESPONSABILIDADE E RECURSOS. NÃO OBSTANTE QUAISQUER DANOS QUE VOCÊ VENHA A TER POR QUALQUER RAZÃO (INCLUINDO, SEM LIMITAÇÕES, TODOS OS DANOS MENCIONADOS ACIMA E TODOS OS DANOS DIRETOS OU GERAIS), A RESPONSABILIDADE TOTAL DA CONSTRUTORA E DE QUALQUER UM DE SEUS FORNECEDORES SOB QUALQUER DISPOSIÇÃO DESTE CONTRATO E O SEU EXCLUSIVO RECURSO PARA TODAS AS HIPÓTESES ACIMA SERÃO LIMITADOS AO VALOR EFETIVAMENTE PAGO POR VOCÊ PELO APARTAMENTO OU US$500,00 (QUINHENTOS DÓLARES AMERICANOS), O QUE FOR MAIOR. AS LIMITAÇÕES, EXCLUSÕES E ISENÇÕES DE RESPONSABILIDADE ACIMA SE APLICAM NA EXTENSÃO MÁXIMA PERMITIDA PELA LEGISLAÇÃO APLICÁVEL, MESMO QUE QUALQUER RECURSO NÃO CUMPRA O SEU PROPÓSITO ESSENCIAL."

A rigor essa cláusula, com a qual você concordara ao habitar o apartamento segundo o próprio contrato, significaria que a construtora cujo prédio caiu não seria responsável por falhas na edificação, mesmo que estas falhas fossem de construção e mesmo que você os avisasse de que havia problemas com o prédio antes que ele caísse. Ela também significa que a construtora não seria obrigada a pagar pelos seus bens ou pela morte de seus familiares, apenas devolver o valor que você pagara pelo apartamento ou US$ 500,00, o que fosse mais alto.

Pare de ler o texto agora e pense 5 minutos sobre isso, vou tomar um café...

Pensou? Se uma construtora fizesse esse tipo de contrato você assinaria? Moraria em um apartamento ou casa quando o construtor lhe dissesse: "Olha, eu construí, mas morar aí é problema seu, se cair não vou me responsabilizar"?

As construtoras não podem fazer isso (felizmente) porque a lei brasileira responsabiliza uma empresa por até 50 anos após o término das obras. No Brasil uma construtora deve pagar (em caso de desabamento) aos moradores valores relativos aos móveis, à objetos sentimentais ou de valor, ao próprio custo do apartamento/casa, e indenizações por mortes provocadas pela ruína da edificação. Há casos onde multas por constrangimento e danos morais e psicológicos também podem aplicar-se e multas ainda maiores por irresponsabilidade ou dolo. Se a construtora tiver sido avisada por clientes/moradores, da possibilidade de ruína pode haver até processo por homicídio e prisão para o dono e o engenheiro responsável da construtora. Assim, no Brasil, os construtores e engenheiros são responsáveis legais pelos prejuízos à terceiros que a falha de seus produtos podem ou venham a causar. Isso também aplica-se aos profissionais da medicina e do direito.

Esse contrato então é uma invenção minha? Não! Ele é o contrato de licenciamento de software da Microsoft. Eu troquei a palavra Microsoft por Construtora, os termos Software por Apartamento e mudei o valor da multa de US$ 5,00 (!) para US$ 500,00.

Vamos falar português claro! A Microsoft faz um produto na qual ela confia tanto que obriga seus clientes a concordar com um contrato que garante que ela não seja responsabilizada legalmente caso esse produto falhe! A Microsoft quer que seus clientes se explodam! E em suas propagandas ela diz que Linux é que não tem garantias. Pergunto: que diabos garantias ela fornece com o Windows?
-Garantia de que ele vá funcionar como esperado: Não
-Garantia de que se ele parar seus prejuízos serão cobertos: Não
-Garantia de que seu negócio não vai parar por falahas no software: Não
-Garantia de que se houver vazamento de informações privilegiadas suas ou de seus clientes você não perderá dinheiro: Não

Resumindo. Se eu sou administrador de um banco que usa Windows2000 nos servidores e algum cracker usa uma falha de segurança do sistema para roubar dados e dinheiro de meus clientes, a culpa é minha! Haha. A Microsoft irá esfregar o contrato na minha cara e dar risada, dizendo que a culpa é só minha, quem sabe até falando algo como: "Bem feito, comprou Windows, a culpa é sua"

Mas só um momento. Alguma empresa de software/informática fornece esse tipo de garantia? Que eu saiba: Não! Então se os contratos da IBM, da HP, da SUN, da Oracle são parecidos com os da Microsoft por que ficar pegando no pé dos caras de Redmond? Simples: Porque eles adoram criticar o GNU/Linux (e o software livre de maneira geral) porque SL não tem uma empresa por trás, porque SL não tem segurança, porque SL é mais caro de manter, tem TCO mais alto, e esse bando de besteiras que ninguém aguenta mais. Porque a Microsoft é a empresa que os usuários de SL adoram odiar, e porque ela merece esse ódio intenso.

A licença GNU GPL, por exemplo, também isenta o desenvolvedor de qualquer responsabilidade sobre perdas e danos, mas obriga que o código fonte do programa seja apresentado junto com o mesmo. Em teoria isto significa que eles (os desenvolvedores) estão de dando uma chance de procurar por erros ou bugs nos programas antes de rodá-los e que por essa razão caso uma falha fosse explorada a culpa poderia ser mesmo repartida entre o usuário e o desenvolvedor, afinal ambos poderíam estar cientes dos problemas implícitos que poderíam existir.

Mas deixando isso tudo de lado deu pra perceber que a Microsoft mudou sua estratégia de marketing anti-SL. Antes ela dizia que SL era pior. Depois dizia que ela tão bom quanto, mas era mais caro. Agora ela diz que até pode ser melhor, até pode ser mais barato, mas com treinamentos e manutenção você vai gastar mais com SL do que com Windows. E, pasmem, para confirmar isso a Microsoft chegou a dizer, em seu site, que para um administrador de rede é melhor usar Windows porque este vem pronto out-of-the-box para conectividade, é um software que já vem completo; diferente de SL que precisa de remendos no código fonte para poder funcionar. A Microsoft está dando a entender que a única boa razão para o software livre ser livre é porque ele é uma coisa inacabada que precisa ser reescrita e alterada para cada caso em particular, é o novo argumento contra o SL da Microsoft!

Agora deixa eu dizer uma coisa sobre software completo. Um amigo meu tem um Scanner que funcionava perfeitamente bem em Windows 98, e que mesmo tendo drivers para WindowsXP simplesmente não funciona. Não sei se é bug, se é problema no driver, se é macumba de alguém, mas no WinXP não funciona nem a pau! Fui lá, reinstalei driver, verifiquei a ligação, toda a cartilha. O driver roda, reconhece o scanner, mas na hora de operar, dá erro e morre. Esse é o software completo da Microsoft. Se fosse SL e eu fosse bom em programação eu poderia dar uma olhada nos fontes, recompilar aqui e ali e tentar entender porque não funciona. Mas como é software proprietário e completo, se não funciona jogue fora e compre outro. Quando ele me perguntou o que fazer, já que ele não quer ter que comprar outro scanner eu sugeri na bucha: Dual boot com WinXP e Win98! E ri da cara dele.

- Tenho 3 máquinas aqui em casa, todas rodando a mesma versão e distro de GNU/Linux. Escrevi um pequeno script que atualiza os mirrors de update da distro e rodo de tempos em tempos em todas elas, do meu teclado e mouse, sem sair da minha cadeira. Dá pra fazer isso em Windows out-of-the-box?

- Meu aMule é uma versão beta que às vezes fecha sozinha, me deixando na mão. Escrevi um script que abre o aMule de novo se seu status de fechamento for diferente de zero. Dá pra fazer isso no Windows out-of-the-box?

- Meu uptime é de, em média, 5 dias, Com 100% do precessador em uso sempre(!) e tudo que eu preciso aberto, consumindo 80 a 90% da RAM. Dá pra fazer isso com o Windows out-of-the-box?

Se você respondeu sim a qualquer uma das perguntas acima escreva para mim contando como você fez isso, estou curioso ;-)

Gostaria mesmo de perguntar ao pessoal da Microsoft: qual é o software incompleto?
É aquele que está sempre em evolução (por isso nunca é finalizado) que consegue ser o que precisa ser, nem mais nem menos. Ou é aquele que precisa de Network Wizard pra isso, Cookie Cleaner pra aquilo, Firewall não sei o quê, e Wizard de update e programas de terceiros de cima abaixo para poder fazer algo mais que mostrar janelinhas na tela?

Pode até ser que o GNU/Linux e os BSDs estejam longe de seram palatáveis para o desktop doméstico. Mas que são sistemas servidores e de rede bem mais completos e melhores que o Windows, sem dúvida. Não vê quem não quer. E tomara que a Microsoft acredite em seu próprio marketing, pois está sendo um caminho sem volta. Quando o Cell sair conversaremos...

PS: Falei em Cell e me lembrei; eu acho que vi Dvorak na Info desse mês falando sobre como os processadores Dual Core da AMD e da Intel vão revolucionar o mercado!!! Tô ficando louco? Se foi isso mesmo que eu vi acho que o pessoal do mundo Wintel ainda não sabe o que é Cell, Playstation 3, processadores de próxima geração que começarão à chegar ao mercado ano que vem... eita povo desatualizado...

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Comments:
Gostei da Analogia "dramática" sobre prédios que caem X softwares que travam. Mas isso não vem ao caso, faltou você falar que dependendo do "modelo" de apartamento que você adquiriu você não pode fazer encanamentos, ou ligar sua pia. Telefone nem pensar nesses casos.

Apesar de já ter citado aqui que eu odeio a veia futurista do Dvorak, tem uma coisa que ele sempre fala, tanto na Info como na PCMag que eu concordo plenamente, que "as empresas americanas acreditam em seu próprio marketing"

No mais, parabéns pelo texto e continue o excelente trabalho

PS eu visito o site sempre que tem texto novo, mas sempre esqueço de comentar

Abraços
 
Interessante o contrato absurdo da Microsoft, tem algum link do site da Miscrisoft pra ver ele?
 
rafael: a análise é bem dramática mesmo ;-) porque eu queria que um usuário comum (como eu) pudesse conceber a ótica de um banco tendo dados de milhares de clientes roubados e vendo-se sob a mira de vários processos por conta disso, por exemplo. Seria um prejuízo enorme para qualquer grande empresa ter de enfrentar processos coletivos ou individuais de grandes clientes, como para uma pessoa comum ter grande parte de seu patrimônio (como um apartamento) ameaçado por irresponsabilidade de terceiros. Imagine o que é para a engenharia de software da Boeing (ou para seu fornecedor), por exemplo, desenhar o sistema operacional de um Jumbo 747 que irá levar 300 ou mais pessoas várias vezes por dia de um ponto a outro do globo!!!! Um sistema desses é testado à exaustão para garantir que nada vá dar errado durante um vôo. Vi um documentário do Discovery Channel sobre o projeto do Airbus 380 (que será o maior avião de passageiros do mundo) e lá foi dito que o avião deve permanecer voando e 100% operável mesmo que metade (isso mesmo 50%) de seus computadores apresentem problemas durante um vôo. E a pergunta que me vem à mente é: Porque o sistema operacional do Airbus 380 deve ser tão bem testado e tolerante à falhas se a Airbus não tem como principal negócio Sistemas Operacionais, mas sim aviões. Enquanto a Microsoft, cujo principal negócio é sistemas operacionais (ou correlatos) pode vender queijos suíços fantasiados de sistemas operacionais e ainda achar-se no direito de dizer que o Software Livre (e o Linux aí incluso) não é competente, ou bom o bastante, ou não é integrável? E ainda por cima isentar-se de qualquer responsabilidade sobre mal funcionamento ou falhas simplesmente porque ela está mais preocupada com o próprio marketing do que com a qualidade real do produto! É um ultraje chamar o Windows de sistema operacional e qualquer um que já tenha usado o UNIX À SÉRIO sabe disso.

Quanto ao Dvorak, muitas vezes ele fala coisas legais, mas muitas vezes fala besteiras de doer (eu também faço isso, mas não digo que isso é minha profissão, ok?) o lance de que as empresas estado-unidenses acreditam no próprio marketing é uma verdade. Microsoft e Intel inclusas! Falei dele pq ele pintou os Athlon/Opteron e Pentium dua core como a última vedete tecnológica, quando isso já existe há séculos. O XBox 360 (próximo video-game da MS) terá um PowerPC com 3 (triple) core rodando à 3.2GHz... então acho que um Athlon dua core é uma coisa muito bacana, mas está longe de ser algo fantástico, como o artigo do Dvorak da Info de Setembro faz parecer. Então das duas uma: ou ele está mal informado sobre o mercado ou acha que nós aqui do terceiro mundo (os artigos dele para a Info são material exclusivo desta) somos uns caipiras que não entendemos nada. Em qualquer dos casos ele peca, pois seu papel enquanto profissional da imprensa de tecnologia é informar e não confundir ou iludir. Então acho que ele também acredita um pouco demais no marketing das grandes empresas, o que me deixa sempre com um pé atrás ao ler seus artigos. No mais, obrigado pelas visitas e comentários.

kristopher: O contrato citado em meu texto é um CONTRATO DE LICENÇA DE USUÁRIO FINAL COMPLEMENTAR PARA SOFTWARE MICROSOFT relativo aos updates do VisualStudio (a suíte de desenvolvimento da Microsoft) e pode ser lido na íntegra em http://www.microsoft.com/brasil/msdn/produtos/VisualStudio/LicenciamentoFramework/Default.mspx
O texto foi copiado em caixa alta e manteve a forma do original a não ser pelas alterações que eu mesmo citei no meu texto original. Boa leitura!

Aliás peço a todos que usem software pirata da Microsoft ou de qualquer outra empresa que faça software proprietário que leiam seus contratos de licenciamento. Isso porque todos os contratos que li até hoje falam que você aceita seus termos no momento em que usa o software (sem distingüir se o software é pirata ou não). O que significa que os termos de licenciamento aplicam-se a você mesmo que você não tenha adquirido a licença. Um programador que use o Visual .NET pirata concorda que seu código é de co-autoria da Microsoft tanto quanto um usuário que tenha adquirido a licença oficial do mesmo. O que significa que a Microsoft tem respaldo legal (nos EUA ao menos) para exigir participação em renda ou benefícios advindos da venda ou licenciamento do código criado com o Visual .NET, ao menos até onde as discussões que acompanhei sobre o tema puderam chegar.

Assisti uma palestra de um integrador MS sobre XML e Web Services uma vez e nela o profissional estimulava a desenvolver tudo (até arquivos XML simples) no .NET. Ao final da palestra fui conversar em particular com ele e disse que achava mais interessante o PHP e MySQL para soluções de dados on-line, por serem padrões abertos e multiplataforma. Ele me disse "PHP é horrível e MySQL é lento, pense sobre .NET com C# ou VB..." eu retruquei: "Mas isso não roda em GNU/Linux, em Apache até pode ser mas..." ele me interrompe: "C# e VB em .NET vai rodar em Linux logo, não tem jeito, web services será Microsoft". Desde então sou contra Mono por causa do sistema de licenciamento do .NET. E todos deveriam mesmo ler as licenças dos softwares e pensar sobre isso.
 
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