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domingo, agosto 21, 2005

Quem tem medo do MacOS?

Estive pensando sobre como foi a história e o desenvolvimento dos sistemas operacionais para os computadores de pequeno porte. É engraçado ver que a única solução que obteve sucesso mercadológico continuado e que não era um UNIX ou um de seus likes foi o binômio DOS/Windows.

Falando de sistemas operacionais não UNIX:
- O OS/2 Warp era um bom sistema, mas um péssimo produto;
- O BeOS era muito bom e leve, mas foi pouco reconhecido pelo mercado;
- Os clones de DOS foram massacrados pela dupla IBM/Microsoft;
- O MacOS sempre foi um excelente produto mas um sistema controverso (pra não dizer ruim mesmo) até tornar-se um UNIX-like e cair nas graças da mídia;
- O MS-DOS/Windows é um excelente produto e um sistema sabidamente fraco;
- Outros sistemas apareceram aqui e ali mas não provocaram reações mercadológicas dignas de nota.

Então começo a ler boatos sobre o tipo de perturbação que um MacOS X (um UNIX-like mesmo pois baseia-se no kernel BSD) portado para x86 poderia causar no mercado Windows. Mesmo que a Apple diga que o futuro MacOS para processadores Intel não rodará em PCs me deparo com coisas como "hackers irão fazer o MacOS rodar em PCs e isto irá afetar o Windows e mais ainda o GNU/Linux". Só consigo pensar em uma palavra quando leio isso: besteira!!!

A começar pelo acordo entre a Apple e a Intel para que esta forneça processadores para os futuros Macs. Os rumores mais confiáveis que eu li até agora dão conta de que a Intel venderá chips Itanium para a Apple. O que significa que os futuros Macs não seriam PCs, nem aqui e nem na Lua. E isto faz sentido pois esses processadores usam um set de instruções que não é compatível com o x86, de 64bit, o que manteria o diferencial da marca Apple. A rigor nada mudaria para o panorama atual, pois o MacOS de PowerPC não roda em x86, assim como o MacOS de Itanium não rodará em x86. Portanto acredito mesmo que nada vá mudar.

Essa tese me parece a mais crível porque a plataforma Itanium está com a corda no pescoço. Nunca pegou na verdade e hoje o produto para servidores da Intel que realmente vende é o Xeon. Com a popularização de Opterons e Xeons de 64bit o Itanium é um elefante branco, que a Intel tem pouca (ou nenhuma) possibilidade de sustentar no mercado futuro. O Pentium4 é uma plataforma ruim, estagnada pelas limitações de clock que a engenharia da Intel criou, de fato, com mesmo clock, um Pentium4 é muito pouco melhor que um Pentium3. Assim a Apple estaria dando um tiro no pé usando Pentium4 ou Xeon, pois passaria a ser apenas mais um fabricante de PCs comuns, como a Dell, a HP, a IBM, etc.

Para a Apple, a única maneira de manter um produto diferenciado, como os que tem hoje, seria optar pelo Itanium. Esse negócio é maravilhoso para a Intel, pois viabilizaria sua plataforma mais morta-viva atualmente. E assim, como citei a pouco, o MacOS seria restrito aos Macs Itanium.

Mas supondo que eu esteja errado, e que a Apple e a Intel achem melhor negócio que o Mac torne-se uma máquina x86. O MacOS então teria uma versão x86-64 (o set de instruções criado pela AMD) e poderia ser levado a operar computadores x86 de outros fabricantes, certo? Talvez não. Talvez a Intel forneça uma versão específica do processador para a Apple, com um nível de versão único, e o MacOS possa verificar esse nível, recusando-se a rodar em outro processador. Talvez o chipset das novas placas, feito pela Intel sob medida para a Apple seja necessário para rodar o sistema. No final das contas o MacOS rodaria em x86, mas apenas no hardware especialmente adaptado para ser comercializado diretamente com a Apple.

Mas supondo que eu esteja errado novamente, e que o MacOS seja um sistema que possa rodar em qualquer x86 ou x86-64 e possa ser vendido em caixinhas como o Windows. Ou então que um hacker maluco consiga criar um modo de enganar o sistema e os Macs tornem-se disponíveis para nossos PCs. Se isso acontecesse, qual seria o real impacto para o Windows e o GNU/Linux?

O MacOS tornou-se um bom sistema, usando uma versão adaptada do kernel BSD. Agora ele tem multi-tarefa e é sólido como uma rocha. Mas o MAC tem uma interface pesada, que usa muito bem o poder de fogo dos PowerPCs que a IBM vende à Apple, e é feito sob medida para este hardware. Levá-lo para outra plataforma menos competente, como a x86, significa ter de abrir mão de algo para manter o bom desempenho geral. Ou sacrificar o desempenho premium em troca de perfumaria gráfica.

O primeiro caminho, abrir mão de recursos visuais para privilegiar o desempenho colocaria o MacOS em uma posição muito próxima a do GNU/Linux, e poderia decepcionar alguns fãs de data da marca da maçã. O segundo caminho, optar pela parte gráfica e pela facilidade de uso em detrimento à estabilidade e desempenho, o colocaria próximo ao Windows, em produto bem acabado, fácil de usar, mas cuja confiabilidade é uma lenda como o boitatá ou a mula sem cabeça. Milagres são para santos e não para engenheiros de software, a Apple não irá conseguir manter o MacOS como é hoje e levá-lo a ser competente (como sistema e como produto) em uma plataforma mais fraca que a atual.

Há que se levar em conta que boa parte do respeito que a Apple tem no mercado advém da parcepção de qualidade que a marca passa. Criar um produto meia-sola apenas para estar presente em um mercado não condiz com o que a Apple tem feito ao longo de sua vida. Um sistema que rodasse em hardware genérico poderia afetar a imagem da Apple e dificultar as coisas para um fabricante que é conhecido por ter os produtos mais caros do mercado. Com o passar do tempo o sistema poderia ter uma fama parecida com a do Windows, pois sabemos que má qualidade de hardware é um grande problema para qualquer sistema operacional.

Ainda existe a questão mercadológica. O Windows XP Professional custa hoje cerca de R$ 1000,00. Um MacOS 10.3 custa cerca de R$ 450,00, segundo a tabela da Apple. A batalha ocorrerá dentro daquela faixa de mercado que se dispõe a pagar essas quantias por sistemas operacionais. Um GNU/Linux pode ser comprado por preços muito menores, cerca de R$ 27,00. Windows e MacOS saem da caixinha com aplicativos básicos, não existe produtividade de escritório com Notepad. Enquanto um GNU/Linux após ser instalado já tem aplicativos Office, gráficos, e muitas outras coisas como servidores, e tudo mais que possa ser necessário para que o sistema entre em operação sem a necessidade de instalar outros aplicativos.

Mas o mais importante não é a questão monetária, já que nisso fica claro que o MacOS iria espancar o Windows até a morte se fosse oeferecido para PCs. Entre os três competidores desta arena imaginária apenas o GNU/Linux é software livre. O mercado ideológico do GNU/Linux (que é tão forte quanto o mercado econômico) é muito mais difícil de ser conquistado que o mercado de usuários Windows. Muitos não irão abrir mão das possibilidades do software livre e de código aberto, e prova disso é que existem muitas distros de GNU/Linux para Macs, ou seja o GNU/Linux (ao contrário do Windows) já vem competindo com MacOS há algum tempo.

Uma questão secundária é a disponibilidade de programas, e jogos (!) para MacOS, que é sem dúvida muito menor que a do Windows, e o colocaria em grande desvantagem em uma eventual briga com a Microsoft. Deste mesmo mal sofre o próprio GNU/Linux, que não conseguiu ainda uma penetração maior no mercado de PCs doméstico por ter um número pequeno de grandes e conhecidos programas e jogos disponíveis. Nesse quesito o MacOS e o GNU/Linux teriam o mesmo problema com relação ao Windows.

Por fim, e não sei se vale a pena comentar isso, um dos maiores acionistas da Apple é Bill Gates, isso mesmo, o Dick Vigarista em pessoa é um dos patrões de Steve Jobs (e Jobs achava que a IBM era o grande inimigo, hahahaha). Não vejo como Gates permitiria que Jobs chegasse com seu MacOS e ameaçasse o Windows desta maneira.

Mas mesmo com todas essas coisas, se a Apple decidir lançar o MacOS para x86 e tentar brigar com Windows e GNU/Linux, pode ser que a maçã ainda consiga êxito, proveitando-se de sua competência mercadológica e tradição de qualidade, mesmo que a altas custas. E se no final das contas o MacOS para x86 atrapalhar o desenvolvimento do GNU/Linux poderemos ainda, como forma de vingança, mostrar do dedo do meio para a Licença BSD e a OSI por permitir que desenvolvimento livre e aberto torne-se proprietário e não seja retornado como benefício para a comunidade que o criou.

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Comments:
sabe lindo testo, muito legal

mas você cometeu erros terrivel não ver o que está acontencendo do seu lado, sabe desde da semana já conseguiraram hackear o mac os x para rodar em qualquer pc, bastando ter sse2 e se tiver sse3 roda até o rosseta e funciona qualquer aplicativo...

é muito lindo, seu texto,


detalhes: http://osx86project.org/

se não acreditar: http://wiki.osx86project.org/wiki/index.php/OSx86:Gallery
 
Olá Renato, primeiramente obrigado pelos elogios.

O texto foi escrito com propósito de analisar as possibilidades de uma hipotética briga entre MacOS x Win x GNU/Linux e discute várias possibilidades que são, inclusive antagônicas.

Gostei bastante do material que você citou mas quero salientar uma coisa sobre ele. O OSX86 é um projeto que roda o MacOS X em PCs x86 usando um emulador chamado PearPC (http://wiki.osx86project.org/wiki/index.php/FAQ#How_does_this_relate_to_PearPC.3F). Esse tipo de emulação de hardware permite que se rode máquinas virtuais dentro de máquinas reais. Em um processo parecido o VMware permite rodar o Windows XP sob o GNU/Linux. Isso não significa entretanto que o Windows tenha sido portado para GNU/Linux, de modo algum. O mesmo é verdade quando digo que o MacOS X não roda em PCs x86. A emulação permite ter um MacOS X rodando em um Pentium mas o sistema fica "extremamente lento" segundo o próprio OSX86 então não considero (e nem o mercado considera) uma alternativa viável de produtividade.

Novamente obrigado pelos elogios e por participar.
 
Óla novamente falcon,

na verdade se você entrar nos fórum deles, você vera que eles já param de usar o pearpc e já estão rodando nativamente,

tanto que existe por ai uma imagem de hd pronta para quem quiser o mac os x só bastantando assim copiar via dd ou norton ghost e rodar nessas máquinas que citei.

neste site: http://www.xplodenet.com/ tem um tutorias ensinado passo a passo como rodar tanto pelo vmware como nativamente.
 
BeOS era unix-like sim, e a propósito, um belo de um unix-like, POSIX, pena que não era aberto, senão hoje... estaria rodando um aqui :P

Bom, só para comentar:
A Apple sempre vendeu computadores, nunca sistema operacional. Tanto é que não é a primeira vez que ela resolve mudar de plataforma, isso já tinha acontecido com o motorola.

Você lembra do Rhapsody? O que era aquilo? Um mod do nextstep? Aquilo também era UNIX-like.

O problema é que a Apple nunca se importou com isso, não importa o que está por dentro, importa é o que o usuário vê, como ele se sente usando, e isso se aplica dentro e fora do sistema.

O que mais me intriga é o fato de falarem muito bem da plataforma PowerPC, de que lá não tem estouro de pilha, processa gráficos muito rápido, etc. Mudar pra IA32 (ou 64) é sacanagem!

Mas eu fico pensando como as coisas são: Antes dos computadores pessoais só existiam aqueles armários de grande-porte, aonde só mexia quem fosse graduado ou parente de algum administrador. Não havia porque ter intuitividade no sistema, não existia isso, ou você sabe ou não sabe. UNIX era a plataforma padrão (seja lá Sun, HPUX, AIX, aquelas coisas...) e o objetivo delas eram dar o poder absoluto ao usuário.

Quando surgiram os primeiros computadores pessoais (Apple) com GUI, a coisa mudou, pessoas que não sabem o que é um byte agora podiam mexer nos computadores, de forma intuitiva. O uso em si era muito limitado do que se fazia naqueles armários.

Então surgiu o IBM-PC com MS-DOS e logo e seguida o MS-Windows (win16), como uma alternativa ao Mac.

O Linux (o kernel) e a GNU surgiram um pouco antes como uma alternativa livre ao UNIX comercial.

Agora veja:
O GNU/Linux, que era para ser uma alternativa para servidores, acabou virando uma alternativa para Desktop pessoal. Concorrendo com o Windows principalmente.

O Windows que era um sistema falho (já foi muito mais) acabou virando uma alternativa para servidor, vemos aí a Microsoft divulgando o Windows 2003, SQL Server, IIS, Exchange, acho que ninguém imaginava que um fraco NT iria tornar-se isso. Windows era só para desktop's baratos, e NT (Workgroup) era uma solução meia-boca pra coloca-los em rede.

O UNIX, que é uma plataforma desenhada para servidores hoje é a base do Mac OS X, um sistema todo intuitivo, o extremo-oposto do propósito do UNIX.

Ou seja: virou tudo uma salada e ninguém é de ninguém :)
 
Renato: Sinceramente acho difícil que tenham portado o MacOS X para x86 sem consentimento da Apple e sem emulação pois partes importantes da interface gráfica do sistema são PowerPC only e de código fechado. Seria possível fazer isso com engenharia reversa, mas além de ser um trabalho oneroso e difícil também seria crime e permitira que a Apple processasse judicialmente quem fizesse isso. O que eu sei que existe é uma versão para desenvolvedores do MacOS X para x86 oficial da Apple, mas esta também usa um emulador de PowerPC interno para rodar muita coisa, aliás um emulador de PowerPC G3, muito ultrapassado e de desempenho reconhecidamente baixo. Novamente isso não é impossível de ser feito (rodar um MacOS X nativamente em x86) mas sem o consentimento explícito da Apple é ilegal. E por ser ilegal não seria uma solução aceita ou usada pelo mercado (ao menos o mercado corporativo) que é o maior nicho da Apple.

Daniel: Interessante sua analogia da mudança de foco dos desenvolvedores. Aliás, o fato do Windows estar focando-se em servidores é o maior alerta para a comunidade de software livre para não tentar transformar o GNU/Linux em um clone do Windows, para não perder espaço no setor de servers para o próprio Windows e outros UNIXes como o Solaris.
Em tempo, o BeOS não é UNIX-like. Ele é compatível binariamente com o POSIX mas seu kernel foi construído do zero, sem usar a arquitetura do UNIX, a compatibilidade foi instituída a nível de API, como pode ser verificado em (http://www.beatjapan.org/mirror/www.be.com/support/qandas/faqs/faq-0131.html). Claro que nesses termos poderíamos até dizer que o Linux também não é um UNIX-like por ter sido construído da mesma forma, do zero, sem usar código UNIX. Mas como a Be sempre refutou esse título, de ser o BeOS um UNIX-like pelas diferenças conceituais e construtivas, eu apenas fiz mérito ao desejo desse grande sistema de ser considerado uma plataforma independente, como seus desenvolvedores gostavam de colocar. De qualquer modo, classificar ou não o BeOS como UNIX-like é mais questão de semântica que de verdade prática, por causa da implementação do padrão POSIX. Por essa ótica também poderíamos dizer que o MacOS X também é um UNIX-like e que a excessão do próprio UNIX, o OS/2 Warp da IBM é o outro único sistema operacional já criado pela indústria que esteve próximo de ser bom de usar e estável. Já que tirando OS/2 e UNIX só sobra mesmo DOS e Windows :-P

Obrigado pelos comentários
 
Depois de escrever o último post me lembrei de algo que vale a pena comentar. O Windows NT e o XP (por conseqüência) tem grandes partes do código (do kernel) inspirados no código do IBM OS/2. O que significa que se considerarmos que o WinNT/XP está para o OS/2 como o GNU/Linux e MacOSX estão para o UNIX temos hoje um diálogo entre duas frentes apenas:
UNIX-like versus OS/2-like

O que não deixa de ser justiça poética, já que são os dois sistemas que eu (pessoalmente falando) considero como sendo os melhores sistemas já produzidos pela industria da informática. Essa é uma maneira no mínimo curiosa de olhar as coisas... pensarei em um post sobre isso....
 
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