Segunda-feira, Novembro 05, 2007
Negroponte é difícil de entender
Essa situação de criação mútua é tão interessante nos quadrinhos quanto na vida real. Na melhor mostra de que cada ação tem uma reação igual mas em sentido contrário o mundo da informática se move tal qual nosso universo. A OLPC falou em fazer um computador portátil de baixo custo, Intel e Asus já correram para ter algo parecido. E entregaram primeiro, diga-se de passagem. A Apple decidiu entrar no mercado de telefonia com seu iPhone, e temos agora o Google participando de um projeto de plataforma aberta para celulares. Só para citar exemplos mais recentes e da moda.
Mas de todos os exemplos de lutas, brigas, guerras e concorrências da história da informática é o OLPC, o notebook de US$100 o que eu menos consigo entender. Depois de fazer o maior alvoroço sobre "nada" que eu já presenciei nos meus poucos anos de vida. Há quanto tempo Negroponte passeia pelo mundo conversando com chefes de estado, empresários, a fala sobre seu pequeno aparelho?
No começo a idéia era ter o primeiro notebook educacional da história, com um conceito revolucionário, de baixíssimo custo, com um sistema livre e aberto que pudesse estimular crianças do mundo todo a despertarem seu lado criativo, a aprenderem com mais facilidade. Hoje ele será apenas mais um computador portátil de baixo custo pois Intel e Asus já colocaram suas soluções na praça. E o custo nem será tão baixo assim. Agora o próprio Negroponte afirmou que o Windows é fundamental para o projeto dar certo.
Quer saber o que não entendo? Uma unidade de R$188 ou R$200, que com um câmbio de R$1,75/dolar daria algo perto de R$350,00. Claro que, no Brasil, cada notebook de R$350,00 chegaria à custar para meu bolso de contribuinte algo perto de R$500,00 pois cada órgão público que colocar as patas nesses computadores vai superfaturar alguma coisa para um padrinho deputado ou senador da república. Em um país onde políticos sobem no palanque com o meu e o seu dinheiro é difícil acreditar que esses bichos chegarão às escolas pelos preços de tabela.
Olha, notebooks de verdade, com telas de 14 polegadas e processadores de 1,6GHz e HDs de 40GB já custam hoje algo em torno de R$1.300,00. Se o governo os isentasse de impostos poderia provavelmente colocar cada Dell Vostro ou HP Compaq em uma escola por R$900,00 a R$1.000,00 e estes seriam computadores completos. Acho que a longo prazo talvez fosse um investimento maior, verdade, mas com maiores recompensas.
Mas o argumento da OLPC também envolvia alguma coisa sobre uma interface diferenciada, código aberto, possibilidade de estimular as crianças a desenvolver suas próprias habilidades, e isso não tem preço. Claro que torna o OLPC uma alternativa ímpar. Nem tanto. O laptop de baixo custo da Intel custa pouco a mais que o da OLPC, ainda que seu hardware seja igualmente limitado. E roda Linux. E Linux é aberto para que qualquer um, mesmo uma criança, fique à vontade.
Mas Negroponte precisava de "bolsos mais fundos". Não me espantaria se o Windows fosse realmente a chave para o sucesso do OLPC, financeiramente falando. Pensando como um diretor da Microsoft eu só posso imaginar quando valeria impedir que milhões de crianças ao redor do mundo todo crescessem usando um produto que é o meu pior concorrente. Isso também valeria para cigarros, não apenas para sistemas operacionais.
Então, como diretor da Microsoft, para mim talvez fosse sensato dizer à OLPC que parte do custo de produção de cada máquina seria bancado por mim, desde que aquela unidade cujo preço eu ajudei a controlar saísse com meu SO. Talvez isso explique porque alguém acha que sub-notebooks com metade do preço e da potência de máquinas normais rodando um sistema operacional muito parecido com o que existe à cada esquina em CDs de R$10 vá mudar a vida de alguma criança. Ao menos da forma que um outro tipo de solução mudaria.
Sábado, Outubro 27, 2007
"Não gosto de sentir medo"
Forçados pelo lobby da indústria de áudio-visual os políticos dos EUA criaram uma severa legislação sobre os direitos de propriedade intelectual. Tudo bem. O problema é que a indústria agora usa essa legislação para sair cometendo qualquer tipo de desmando. O caso de Stephanie é um exemplo.
Ela gravou seu filho de 1 ano e meio dançando na cozinha de sua casa uma música do Prince chamada "Let´s Go Crazy" em um vídeo de 29 segundos. Como toda mãe vaidosa ela desejava mostrar esse vídeo para amigos e parentes da família. Ora, em pleno século 21 e na era da internet que lugar melhor que o Youtube para publicar um vídeo que se deseja mostrar à outros? Assim ela o fez.
Pouco tempo depois ela recebeu uma mensagem do Youtube dizendo que seu vídeo havia sido retirado à pedido da Universal por infringir direitos autorais. O vídeo reproduzia a música de Prince e para fazê-lo Stephanie deveria ter licenciado uma cópia para reprodução pública da música, de acordo com a visão da gravadora.
Em lugar de ficar calada, Stephanie acionou um advogado e agora o vídeo está no ar no Youtube e ela move uma ação conta a gravadora pela tentativa de censurar sua liberdade de expressão. Troco merecido pela Universal. E eu sinceramente espero pelo dia em que tantas pessoas movam ações contra gravadoras e que os valores sejam tão altos que essas empresas tenham que fechar suas portas.
Os artistas merecem que seus direitos sejam respeitados, e as gravadoras não fazem isso hoje. Do abusivo preço que um CD custa apenas alguns centavos chegam aos bolsos de seus criadores. A grande parte do dinheiro alimenta os lucros enormes das grandes empresas que não produzem absolutamente nada e tentam justificar o cenário posando como realizadoras do negócio. Esquecem que são os usuários, que agora elas processam, a única razão pela qual elas têm um negócio. E só porque não foram visionárias o bastante para entender que seu consumidor e seu mercado mudaram buscam apoiar-se em ameaças legais para coagir as pessoas. Lembrem-se do garoto recentemente preso em Los Angeles por usar uma máquina digital dentro de um cinema.
A atitude de Stephanie é edificante porque seu vídeo de 30 segundos não buscava distribuir gratuitamente material com direitos autorais. Buscava mostrar sua criança fazendo algo engraçadinho, e só. Mas isso não importou muito para a gravadora. Agora, eu torço para que esta tenha que pagar à sra. Lenz uma boa quantia, e que esse seja o prejuízo inicial apenas.
Sobre a ação que move contra a gravadora a sra. Lenz disse: "Pensei que mesmo que não tenha feito nada de errado talvez eles queiram me processar, pegar minha casa, vir atrás de mim. E não gosto de sentir medo... Não gosto do sentimento de que eu poderia me meter em encrenca por causa de algo tão simples quanto postar um vídeo caseiro para meus amigos e familiares assistirem"
Sou daqueles que precisa de trilha sonora para a vida. Tenho um mp3 player de 2GB e ando com um celular Sony Ericsson de outro 1GB. Quando não estou ouvindo um, estou com o outro. Fatalmente qualquer filmagem minha terá uma música de fundo e eu gostaria que essa insanidade acerca de direitos autorais parasse antes que eu também seja processado. Ou será que teremos que excluir a música e, quando formos filmar nossas vidas, teremos que o fazer em mute?





