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quinta-feira, junho 02, 2005

Dúvidas no quê?

Gerson Schmitt escreveu artigo para o caderno de informática da Folha de São Paulo sobre as dúvidas que o comportamento do governo está gerando no mercado de informática. Como o meu objetivo aqui é sempre dar o contra-ponto para que possamos iniciar uma discussão, após ler a matéria dele aqui você pode ler o resto desse artigo.

Se há alguma confusão no segmento de software brasileiro ela pode ser considerada qualquer coisa, menos culpa do governo. Desdo o primeiro dia deste mandato presidencial o planalto já disse o que queria: Software Livre. Se o PC Conectado só saiu agora, se os órgãos públicos ainda não implementaram SL de cima abaixo isso é culpa da politicagem que sempre fez questão de amarrar as coisas por aqui. Nem culpa do governo, nem culpa da oposição, mas de ambos. Culpa, enfim, dos políticos. Pois eles cedem ao lobby incessante dos grandes e abrem excessões no interesse público para a passagem do privado. E se as empresas de software brasileiras estão inseguras, é porque elas próprias ainda não escolheram um modelo para adotar. Querem fazer software livre para estarem na moda, ser "cool", poder forneceer ao governo, mas querem e pensam em ganhar dinheiro como no modelo proprietário. Isso não dará certo, pois uma empresa pode trabalhar com ambos os modelos de desenvolvimento, mas não podem misturá-los. A IBM, a HP, a Sun, e a Novell estão fazendo isso com muito sucesso. Enquanto a Microsoft tem se batido em processos judiciais, ofensas públicas e lobbys políticos, perdendo mercado e prejudicando a sua própria imagem. Lembrei-me agora do termo "Governança Corporativa" não sei por quê.

Em primeiro lugar não se deve confundir software livre com software grátis. Software livre custa sim, e muitas vezes não é barato. Mas software livre tem um modelo de negócios bem definido, sim senhor, e sustentável. Empresas privadas tem aumentado muito sua receita inserindo software livre em seus catálogos e normalmente elas investem parte desses ganhos na comunidade de desenvolvimento que mantém ou aprimora o produto que está dando lucro. Isso parece um modelo definido e sustentável para mim. A IBM irá investir, em 2005, 100 milhões de dólares em tecnologia para aprimorar o kernel Linux, só pra exemplificar. Se somarmos todos os investimentos que estão sendo feitos em desenvolvimento do sistema GNU/Linux por empresas privadas no mundo talvez tenhamos um total que supere o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento do Windows. Quem pode garantir que as empresas continuarão fazendo isso pelo GNU/Linux? Ninguém. Quem pode garantir que a Microsoft continuará desenvolvendo o Windows Server e o IIS que você usa hoje no seu servidor? O Bill Gates!?! Grande coisa! O modelo de sustentabilidade do software livre não difere muito do modelo do software proprietário, ambos tem pontos obscuros e suas vantagens particulares. Mas como no software livre você tem acesso ilimitado ao código fonte a disponibilidade de um software ou recurso não está ligada aos desejos de lucro exclusivos do desenvolvedor.

Empresas são entidades que querem uma coisa: ganhar dinheiro, quanto mais melhor. É claro que se um produto deixar de possibilitar isso a empresa irá modificá-lo, alterá-lo ou até mesmo substituí-lo por outro para continuar alcançando lucro. Se a Microsoft lança uma nova versão de sistema operacional com correções para falhas de segurança e não fornece essas correções de falhas de segurança para os sistemas antigos você está obrigado a migrar para o novo software, desde que segurança seja fundamental no seu negócio. Isso não pode ser considerado parceria, não ao menos do ponto de vista do consumidor. De fato o sistema proprietário parece muito mais sustentável, mas só porque você consegue "obrigar" o mercado a optar por um produto para obter renda. As empresas que desejam aproveitar-se desse modelo não podem esquecer que raríssimos mercados comportaram-se dessa maneira e sempre por pouco tempo (à excessão de monopólios estatais, como o de petróleo no Brasil). O mercado global de informática é refém da Microsoft desde 1995, há 10 anos, mas o mercado já mostra tendências de desejar mudar esse quadro. No meio corporativo, onde as compras costumam ser apenas racionais, a participação do software livre tem aumentado muito a cada ano. Clientes tem economizado muito e fornecedores tem ganho muito também, e todos estão felizes. Em outros mercados onde outros fatores interferem na decisão de compra a participação do software livre ainda é tímida, mas pesquisas de mercado mostram tendências de crescimento nessas particiações à curto e médio prazo.

À todos aqueles que dizem ser impossível proteger o direito autoral no software livre: informem-se, vocês estão cometendo erros de interpretação. A Pepsi sabe a fórmula da Coca-Cola (soltei uma bomba agora heim?) mas não pode fazer um refrigerante igual à Coca-Cola. Porque se isso ocorresse a Coca poderia processar a concorrente, provavelmente ganharia, e o custo disso seria fechar a empresa. Qualquer laboratório de análises pode desvendar, em questão de minutos, a fórmula da Coca, o "segredo industrial mais bem guardado da história" haha, mas a legislação de propriedade intelectual impede qualquer um de usar essa fórmula, simples assim. Qualquer código que eu escreva e libere como software livre pode ser usado livremente, modificado, estudado, impresso, publicado, queimado e amaldiçoado, por qualquer pessoa. Mas se alguém pegar meu código livre, colocar em um programa e lançá-lo no mercado, preste atenção, como software proprietário ou limitando algum dos direitos garantidos pelo software livre esse alguém estará sujeito à um processo meu por infração do meu copyright. O Software livre respeita e reconheçe direitos autorais, a diferença é que o autor do software livre está cedendo os direitos sobre seu código livre de qualquer obrigação, desde que haja garantias de que o usuário dessas libredades garanta essas mesmas liberdades à outros. É uma espécie de corrente do bem do software. Eu escrevo um código muito legal, te deixo vê-lo, usá-lo, aprender com ele, modificá-lo, fazer o que você quiser, desde que você deixe os outros fazerem o mesmo com o que você criar a partir do que te mostrei. Mas qual é a vantagem nisso?

A vantagem são as vantagens que esse modelo apresenta. Você pode desenvolver conjuntamente, com seu cliente, com seus fornecedores, economizando código e tempo de desenvolvimento. Soluções customizadas são bem mais fáceis de produzir, pois você raramente parte do zero, sempre há um programa ou projeto que serve de base para começar. Se você é consumidor não está preso à um fornecedor, está livre para ir aonde quiser. Se você é cliente, não compra apenas uma licença, compra o software em si, se a sua necessidade mudar, você pode mudar o software sem gastar muito por isso. Se você tem uma necessidade nova, inédita, pode reduzir os esforços de pesquisa e desenvolvimento usando o que já existe e adaptando. A ampla utilização de padrões estabelecidos e abertos, e a boa vontade em forneceer os parâmetros de funcionamento dos softwares e sistemas empregados.

Ou seja, o software livre não tem nenhum tipo de problemas com patentes ou propriedade intelectual e ainda garante liberdades para o consumidor que o modelo proprietário não garante. O que não se pode confundir é patente de produto com patente de sofware. O Microsoft Word é um produto e um software, seu nome, logotipo, aparência, interface e alguns recursos específicos são patenteados e propriedade intelectual da Microsoft Corporation (ou de alguém que ela comprou nos ultimos 30 anos). Mas o termo "processador de textos" e a idéia básica que esse termo representa não são propriedade intelectual de ninguém, ainda bem! Assim, o Open Office Writer (o processador de textos do pacote Open Office) também é um produto e software, com seu nome, logotipo, aparência, interface e alguns recursos patenteados e são propriedades intelectuais de seus criadores, e estão cedidas sem obrigatoriedade para o projeto Open Office. Se eu fizer um editor novo e chamá-lo de Word posso ser processado pela Microsoft, se chamá-lo de Writer posso ser processado pelo Open Office.org. Isso deve servir para mostrar que o software livre vale-se da propriedade intelectual, e que é possível para qualquer empresa gerar lucro nesse segmento e ter suas criações devidamente registradas e creditadas, desde que ela seja criativa e entenda o sentido desse modelo. Não é por esconder infromações do mercado que você garantirá sucesso comercial. O sucesso comercial aparece quando o seu cliente confia no seu software e vê potencial de Retorno Sobre Investimento nele. Se o seu software dá ao cliente essas duas coisas, não importa quantos vejam e estudem seu código, você terá compradores e penetração no mercado.

A Índia deixou de ser mão de obra barata quando o assunto é tecnologia. Temos observado crescimento expressivo no custo de hora trabalhada de mão de obra especializada indiana, saiu na InfoExame há alguns meses atrás. O Brasil hoje já é um dos grandes exportadores de software do mundo, somos o principal fornecedor do Japão. No estado de São Paulo são projetados os circuitos de telefones celulares Motorola que são usados no mundo todo. Mas essas coisas tem pouca ou nenhuma relação com software livre ou proprietário. Pois também temos a maior empresa de Software Livre do Hemisfério Sul, a Conectiva recém associada à frencesa Mandrake Software. Podemos exportar software e tecnologia baseados em sistema livre sem problema algum. Quem não vê essa possibilidade não entendeu o modelo de negócio.

Diversos institutos idôneos realizaram simulações de uso e implantação de software livre, principalmente GNU/Linux, com dados sintéticos e descobriram que o custo de operação dos dois modelos, livre e proprietário, são muito parecidos, ainda que o custo de implantação do software livre seja bem menor, fazendo com que para este o ROI (Retorno Sobre Investimento) chegue um pouco mais cedo. Outras simulações mostraram que o Windows é muito mais barato que o Linux em qualquer aspecto, e que também o Windows não perdia em nada para nenhum Linux, sempre melhor desempenho, sempre melhor escalabilidade, maior uptime contínuo, enfim, o Windows era, pra qualquer caso, a melhor escolha. Depois descobriu-se que essas simulações não eram tão idôneas tendo a Microsoft participado do financiamento da maioria dessas pesquisas. Estudos de caso posteriores ratificaram esses estudo patrocinados, o problema é que todos esses estudos de caso apareceram nas campanhas publicitárias Get The Facts da Microsoft, perdendo sua credibilidade. Mas é sabido que o Metrô de SP conseguiu economizar milhões de Reais por ano mudando sua base para software livre. É fato que depois do CIO do Pão de Açucar ter dito que "SL nem com uma arma apontada pra minha cabeça" no ano passado, hoje o grupo está substituindo sua estrutura para aplicar SL, e sem arma na cabeça! Em todos os estudos de caso reais e não patrocinados que eu vi até hoje todos os CIOs e CEOs sempre disseram: Economizamos X reais com Software Livre. Só vi o contrário disso em propagandas da Microsoft.

Posso estar enganado, mas um cenário oligopolista com apenas 3 ou 4 empresas gigantes é muito pior para geração de empregos e para a manutenção salárial do que outro cenário com centenas de empresas espalhadas por todo país. Com software proprietário é no primeiro cenário que chegamos, não há o que discutir, foi isso que aconteceu. Sistemas operacionais e pacotes de escritório da Microsoft, Banco de dados da Oracle, processamento massivo da Sun, administração de recursos de rede da Novell, bussiness solutions da IBM e acabou por aqui, foi aqui que o software proprietário nos trouxe. Um mundo com um único sistema operacional pode parecer bom até o primeiro ataque do blaster deixar 20% da internet parada por 15 minutos. Hoje temos a percepção que a variabilidade de configurações trás segurança inerente. Com software livre se o seu concorrente dá um passo à frente, você sabe, estuda observa, vê o código dele, por que não? E em seguida você lança algo melhor, que seja mais produtivo, que consuma menos recursos. É assim que software livre promove inovação, pela concorrência direta. E é assim que promove empregos, pois é preciso profissionais capacitados para executar tudo isso. Se o software livre não promovesse a inovação como explicar que o GNU/Linux, nascido em 1991 esteja hoje tão equivalente ao Windows nascido em 1982?

Mais que isso, se alguém disser hoje que irá abrir uma empresa pra fazer sistemas operacionais para computadores não parece mais tão louco quando pareceria há alguns anos atrás. IBM, Novell, Sun, HP, SCO, e muitas outras empresas tentaram combater a Microsoft com sistemas operacionais proprietários, todam falharam. A Microsoft tornou-se especialista em defender esse nicho de marcado e ficou claro que qualquer empresa que tentasse brigar com ela nesse setor seria esmagada. Depois da chegada do GNU/Linux posso abrir uma lsita de ao menos 6 empresas e comunidades que estão brigando com a Microsoft nesse nicho e estão tirando o sono da temida gigante de Redmond. Isso só ocorreu porque o GNU/Linux foi lançado sob o modelo livre. É a grande diferença entre o GNU/Linux Mandrake que eu uso e o Sun Solaris que perdeu espaço nor servidores para o Windows no passado. O sistema livre previlegia a concorrência e permite que a força exercida por padrões proprietários, como o formato de arquivos .doc do MS Word, deix de ter tanta influência, sendo um mecanismo mais igualitário de desenvolver tecnologia e baratear seu custo final.

O papel mais importante do estado brasileiro nos ultimos dois anos, promovendo o debate existente hoje sobre software livre, foi o de abrir espaço para que outras empresas possam fornecer soluções de sistemas operacionais e pacotes de escritório (fundamentalmente, ainda que várias outras soluções estejam em estudo). Para cada máquina com WindowsXP e MS Office o custo é de cerca de Mil Reais! O grande favor que o governo está querendo fazer ao mercado brasileiro de TI, e que poucos perceberam, é parar de dar milhões de reais por ano para a maior empresa do segmento. O governo quer parar de alimentar o Golias, para permitir que o resto do mercado respire. A Caixa Econômica tem distribuido CDs com o Kurumin, um sistema operacional parcialmente desenvolvido no Brasil para que as pessoas possam saber que existe vida inteligente aqui. As empresas que desejarem entrar em licitações do governo terão que usar o modelo livre, e deveriam agradecer por isso, pois no futuro o mercado corporativo fará a mesma coisa, e depois o doméstico fará a mesma coisa. O Governo brasileiro está antecipando uma tendência e não criando-a, está dando oportunidade das empresas brasileiras prepararem-se para isso, está querendo economizar milhões de reais por ano em licenças de produtos que deveriam, por essência, ser gratuitos, desenvolver tecnologia e o mercado local de TI; e, pasmem, esta sendo pichado por um sem-número de pessoas que por razões ignoradas, acreditam que a manutenção do monopólio de uma empresa faz bem ao mercado local, gera emprego, e outras coisas que são incompreensíveis tanto quando são engraçadas.

Meu conselho ao mercado brasileiro de informática é: aproveitem o momento e lancem produtos livres para entenderem o modelo e estarem à vontade nele quando as licitações com produtos livres apenas começarem, e para estarem prontos quando a opções pelo modelo livre tornar-se padrão nos outros mercados. Ou passem um fax com uma proposta de venda de sua empresa para a Microsoft, quem sabe ela adquire sua estrutura também, como já fez com tantas outras. Ou mudem para o ramo de comércio de pastéis, afinal eles também são fechados e nunca da pra saber o que vem dentro, como os softwares propreitários.

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