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quarta-feira, junho 27, 2012

A Microsoft deveria abandonar o nome Windows

Eu já escrevi sobre como o iPad é uma força de mercado e nem Google ou Microsoft conseguirão causar grande abalo na trajetória do primeiro dispositivo da era Pós-PC. A Apple conseguiu consolidar o produto e associar a categoria ao seu nome. As pessoas não compram outros tablets, elas compram o "iPad da Samsung" quando adquirem um Galaxy Tab.

É a mesma coisa que o Windows fez com o mercado de SO para PCs. Não faltaram concorrentes, não faltou alternativa a preços menores. O que faltou foi uma solução matadora. Deixe-me explicar melhor. Nenhum consumidor compra um produto. O consumidor compra uma solução para um problema. O primeiro passo é que o consumidor tem que achar que tem um problema. Ninguém vai comprar veneno de rato se não tiver ratos em casa dos quais queira se livrar. O Linux e o OS/2 Warp falharam em concorrer com o Windows como solução, não como produtos.

Todo mundo que usa Windows já teve problemas com ele. Vírus, coisas que param de funcionar sozinhas, vírus, lentidão, vírus, gerenciamento de memória pobre, vírus, multi-tarefa deficiente, vírus, e outros, muitos outros problemas que todo mundo cansou de ver. Quem não entende nada de computador de vez em quando diz "meu computador está lento, acho que preciso formatar e reinstalar o Windows". Viver com o Windows é assim mesmo e todo mundo se acostumou, do mesmo jeito que se acostumou com os resfriados de inverno. Não tem remédio pra isso, então fazer o quê?

Ao serem apresentados ao Linux, os usuários torcem o nariz, é diferente, não roda os programas que eu uso, tipo o Photoshop, o AutoCad, o MovieMaker. Não faz diferença se existe Gimp e a pessoa não precisa do Photoshop. O Gimp também tem versão para Windows afinal, mas todo mundo se acostumou a ser criminoso e pagar R$10 pelo CD com a última versão do Office não é um incômodo tão grande assim.

Nenhum argumento da IBM, em prol do OS/2, ou da comunidade, em prol do Linux, convenceu as massas de que o Windows era ruim. E as pessoas se acostumaram com ele, mesmo sendo ruim. Fim de papo.

Tablets
Mas surgiram os tablets. Em 2001 a MS apresentou protótipos de notebooks sem teclado operados por uma caneta stylus usando Windows XP. O mercado achou aquilo uma babaquice. Pra que diabos eu vou querer um notebook sem teclado? O erro da Microsoft, você sabe, foi ter uma interface criada para usar teclado e mouse sendo operada por uma canetinha. Era contra-produtivo demais para dar certo. E não deu.

O mercado recusou o tablet da Microsoft e a empresa entendeu, erroneamente, que o conceito era o problema. Na verdade o problema era o Windows que não estava adaptado para uma interface de toque e que tinha os controles e botões desenhados para serem operados com um mouse. A paixão pelo seu Windows impediu a empresa de entender que ele era o problema e que com outra interface o conceito poderia ser aceito.

Smartphones
A MS tentou emplacar o Windows em todos os lugares. A estratégia, chamada Windows Everywhere, era a de ter o Windows ao redor das pessoas de forma que elas entendesse que sua vida não seria possível sem o sistema. Onipresente, o Windows dominaria os outros mercados de sistemas operacionais. Até fazia algum sentido, pois as pessoas poderiam querer em seus celulares, tablets, GPSes o mesmo sistema que elas usavam, e no qual confiavam, em seus PCs.

A MS só não previu o fato de que a maioria das pessoas não contam, confiam e gostam do Windows. Elas usam o sistema nos PCs porque são obrigadas. Algumas, como eu, até mesmo odeiam o Windows. Mas não existe uma alternativa viável a não ser comprar um Mac ou abrir mão dos seus programas e ir pro Linux. Se as pessoas não fossem preguiçosas elas até o fariam, mas o comodismo fala mais alto. Só que quando se trata de outros dispositivos, existem alternativas e na maioria dos mercados elas estão estabelecidas e o Windows era o entrante. Mas para a empresa isso não seria o problema, em sua visão as pessoas gostariam de ter o Windows e o Office no bolso e comprariam um dispositivo móvel que entregasse a dupla como um PC.

A MS fez uma salada de nomes e versões diferentes que é difícil de desmembrar tentando vender celulares com o Windows. Você não vai saber dizer a diferença entre Windows CE, Windows Mobile, PocketPC e Windows Phone facilmente. Foram todos tentativas de emplacar PDAs, PocketPCs e Smartphones que não deram certo. O mercado ficou meio bagunçado até a chegada do iPhone, quando todo mundo identificou o produto que deveria fazer. A imagem abaixo mostra como os telefones eram antes do iPhone e como eles ficaram depois.

A Apple, que nunca fizera um telefone na vida, acertou de primeira e agora todos os concorrentes tinham um modelo de sucesso para copiar. O Sistema Operacional do aparelhinho em nada lembrava um SO convencional de PC e não havia a menor preocupação com entregar um Office ou qualquer outro paralelo com um PC. A Microsoft ficaria 3 anos tentando entender porque o mercado rejeitou seu Windows Mobile + Office e abraçou o iOS sem nada até lançar, em 2010 o Windows Phone. Mas até a reação da MS a Apple ainda lançou outro conceito campeão.

iPad
No começo de 2010 a Apple apresentou ao mundo a sua visão de tablet. O conceito fracassado da Microsoft foi minimizado em tudo. Tela menor, sem HD, com menos memória e em vez de um processador x86 um ARM. Em vez de um sistema operacional pleno, de PC, o mesmo iOS do iPhone. Ridicularizado pela MS o iPad foi tido como um telefone com tela maior, com pouca utilidade. Bill Gates disse que não via uma única razão pela qual gostaria que fosse a MS a lançar aquele produto no mercado. Tornou-se um dos maiores sucessos comerciais da história da indústria eletrônica tendo vendido 67 Milhões de unidades em pouco menos de 2 anos. Você acha que, dado o retrospecto, o iPad teria vendido mais se rodasse Windows? A Microsoft acha que sim.

A resposta ao iOS
Ainda em 2010 a MS lançou o Windows Phone. Uma nova fase no desenvolvimento do sistema móvel que deveria competir em condições de igualdade com Android e iOS. Não funcionou. Exceto por poucos modelos de algumas fabricantes o sistema não encontrou grande aceitação. Novamente a empresa entendeu que o problema era o hardware e em 2011 a MS anunciou um acordo com a Nokia para que a empresa finlandesa ignorasse o mercado e fizesse smartphones exclusivamente com o Windows Phone.

Enquanto todas as outras empresas do mercado se matam para adaptar o Android aos seus aparelhos e para acalmar os usuários que solicitam versões mais recentes do sistema a Nokia teria que focar apenas no hardware e deixar o sistema à cargo da MS. Não está funcionando. As vendas decepcionam e já foi anunciado que mesmo os últimos modelos de Nokia Lumia lançados com o Windows Phone 7.5 não receberão o novo WP8 a ser lançado em breve. Isto não ajudou nas vendas e parece certo que a Nokia terá problemas graves em um futuro próximo. Enquanto isso nunca se ouviu seque menção à possibilidade de haver um tablet com Windows Phone. E a MS vai tentar mais uma vez.

Windows 8
Ao anunciar seus planos para a próxima versão do Windows, a 8, a MS enfatizou que o sistema terá uma versão para processadores ARM que rodará em tablets. A despeito de alguns protótipos sugeridos por gatos pingados e MS parece ter mantido o entendimento que teve em 2001. O problema era o hardware. E para tentar entrar de vez no jogo da computação móvel decidiu ter um equipamento próprio para competir com o iPad.

O iPad da Microsoft
Foi assim que um colega de trabalho se referiu ao MS Surface quando perguntou se eu havia visto o vídeo da apresentação. Na verdade ele se referia ao vídeo do travamento do Surface nas mãos do Steve Sinofsky, VP da divisão Windows da Microsoft. E é assim que o Surface, e todo e qualquer competidor desse mercado, vai ser chamado: o iPad da Empresa Tal... Porque a Apple colocou a barra em um nível muito alto que qualquer outro competidor vai ter que atingir para ter o seu nome lembrado no lugar do iPad.

E não é só isso. Como as vendas do HP TouchPad mostraram depois que seu preço caiu para US$99,00 o preço vai ser muito importante. Na visão do mercado qualquer produto que ofereça "apenas" o que o iPad já tem deve ser mais barato. É o preço que se paga por chegar dois anos depois. Para vender pelo mesmo preço que um iPad um outro Tablet deve oferecer muito mais. E ninguém parece pronto para isso, nem mesmo a Microsoft.

Discutir por que o Surface é apenas mais um produto "eu também tenho" está além das minhas ambições aqui neste artigo. O fato é que enquanto tem gente bastante empolgada com a possibilidade de um (mais um) tablet rodando Windows chegar ao mercado é fácil encontrar na web, entre especialistas e usuários comuns, um pouco de frustração.

Cachorro velho não aprende truque novo
Primeiro porque o fato de a MS trazer à luz um tablet próprio demonstra que ela continua achando, assim como em 2001, que o Windows não decola no mercado móvel por culpa do hardware. Em lugar de trazer um tablet Nokia ou de pedir ao mercado OEM que fizesse um (como o Google faz com o Nexus da Asus) ela arregaçou as mangas e foi atrás do modelo Apple.

A Apple pode controlar o hardware e software porque faz isso em todos os campos onde atua. Será que a Asus vai se esforçar muito para promover um tablet com Windows sabendo que o grande concorrente será a própria Microsoft? E como vai ficar o relacionamento delas no mercado de SO para PC? Será que as empresas que fabricam PCs Miojo e tablets e já buscam no Android do Google uma alternativa de receita não tentarão também um contato maior com a Canonical para saber mais sobre o Ubuntu? Lembre-se, em um mundo onde tudo é dinheiro, assim que valer a pena empurrar PCs com Linux no mercado isso será feito. Os integradores apenas ainda não chegaram nesse ponto.

E a parceria com a Nokia, tão feliz nos smartphones mas renegada nos tablets. A Nokia fará um tablet para concorrer com o iPad e o Surface?

Uma cobra engolindo seu próprio rabo
Segundo que ao mesmo tempo que em tem uma receita anual de ao menos US$444Milhões com o Android e de US$600Milhões com o Windows Phone, promover o Windows no mercado móvel pode ser a analogia financeira de uma cobra engolindo seu próprio rabo. Os dispositivos com Windows devem avançar sobre o mercado do Android e dos PCs. Mas devem afetar pouco as vendas de iPads e iPhones. Ao entender que os clientes da Apple compram uma combinação de software e hardware a MS parece estimulada a ter seu próprio tablet. Mas no caminho vai criar atrito com todas as outras empresas que poderiam vender tablets Windows. Isso aconteceu no mercado de telefones, não temos mais modelos de Samsung, HTC e LG com Windows Phone porque a parceria com a Nokia esfriou os ânimos. O mesmo vai acontecer nos tablets.

E as vendas que ocorrerem estarão focadas nos clientes que, sim, gostariam de um Windows móvel consigo e que portanto estarão deixando de lado seus PCs com Windows para usarem smartphones e tablets com Windows. O quadro mais improvável é um usuário de Mac trocando o iPhone por um Lumia e o iPad por um Surface. Então o Surface estará avançando sobre um mercado que já é do Windows de qualquer maneira ou que na melhor das hipóteses era disputado  pelo Android e pelo iOS. É a própria definição de canibalização.

Enfim a mudança de nome
Em termos rápidos, mudar o nome do sistema móvel e deixar a marca Windows para trás tem muitas vantagens e poucas desvantagens. A MS já perdeu o cliente móvel para a concorrência. Olhe ao redor e veja quantos usuários de Windows tem iPhones ou Androids. Ao insistir na marca Windows ela cola no sistema móvel o que existe de bom e também o que há de ruim. Sua aposta é que as coisas boas são mais importantes. Errado.

Os fãs da MS e os clientes da plataforma continuariam na plataforma da empresa qualquer que fosse seu nome. Uma troca rápida e uma publicidade focada na compatibilidade resolveria todas as dúvidas dos clientes. Aqueles que tem restrições ao nome Windows e à Microsoft poderiam achar que, por tratar-se de algo novo, aquilo mereceria um teste, ou no mínimo um olhar mais cuidadoso. Um novo nome também acabaria com o problema de um Marketplace vazio de Apps afinal de contas quem esperaria que um sistema lançado ontem tivesse milhares de Apps. Mas o Windows, com seu nome, tem que ter milhares de Apps antes que eu compre um telefone.

Um novo nome também acabaria com o problema de incompatibilidade com os Lumia já fabricados. É absurdo um smartphone novinho que saiu de fábrica com o WP 7.5 não ser atualizado para o WP 8. Mas se fosse um novo nome a idéia de um sistema totalmente novo faria disso um fator menor, e até natural. Também permitiria à MS minimizar os problemas do sistema, os bugs e as reclamações de coisas que estão faltando. Afinal é um sistema nascido ontem, é claro que o App de email dele não suporta IMAP.

Um sopro de ar fresco
Mas mais que tudo isso, um novo nome daria a chance de um novo começo. O Windows já fracassou tantas vezes fora do PC que suas melhores chances são de fracassar novamente. Todo o mercado já espera que de errado de novo, afinal é a 4 vez que a MS tenta ter um sistema móvel. O que seria diferente agora? O Windows móvel já teve Office antes e isso não mudou nada. Agora eles tem a interface Metro, e daí? É só o Windows com outra skin. As tentativas de ligar isso com o legado do PC estão gerando reações adversas e a interface Metro no Windows 8 não vai ajudar. Muita gente vai estranhar e reclamar e quando souberem que a mesma interface está no telefone e no tablet vão querer evitar essas coisas.

O que a MS precisa perceber é que as pessoas adotaram o Windows no PC por falta de opção e isso não significa que o mercado móvel vai repetir a adoção do Windows. Um novo nome seria um alívio para uma plataforma que não pode ter recepção dúbia no mercado. Para ganhar do iPhone e do iPad o Windows (Phone) 8 deveria ser uma unanimidade, mas não é.

O velho erro se repete
O tablet e o smartphone já fracassaram nas mãos da MS antes por culpa do legado. A afeição pelo Windows e pelo Office, suas maiores vacas leiteiras, já impediram a MS de inovar antes. O fato do presidente da divisão Windows apresentar o Surface é prova disso. Uma peça de hardware sendo apresentada pelo VP do Sistema Operacional? É o diagnóstico da miopia.


O Surface é uma plataforma nova, um lugar aonde a empresa Redmond nunca esteve antes. Deveria ter uma equipe própria, que demandasse o time de SO por ajustes e soluções e não o contrário, um esforço para levar o velho Windows para o mercado móvel. A MS deveria tratar o Surface como o XBOX, e criar uma divisão de negócios só para ele e deixar ela capitanear os destinos do produto.


A MS decidiu copiar a forma como a Apple dominou o mercado, com hardware e software feito em casa. Mas não fez toda a lição de casa. A Apple usou um nome de SO novo, uma outra interface e, só agora depois de 2 anos está ligando os pontos dos sistemas móveis e desktop. Esse era o caminho que a MS deveria seguir, lançar um novo SO para o móvel com interface Metro e depois de dois anos, se bem aceito pelo mercado levar isso para o desktop. A necessidade de se mostrar inovadora está iludindo a MS.


Tudo por dinheiro
E porque a MS está nesta batida? Porque enquanto a MS ganha cerca de US$55 por PC vendido com Windows a Apple faz US$195 por iPad e US$600 por Mac vendido em média. A MS quer um mercado de tablets tão lucrativo quando o da Apple ou então em mais alguns anos a Apple vai dominar também o mercado de PCs. Para a MS a única forma de proteger sua posição é aumentar suas receitas uma vez que o mercado de PCs com Windows está derretendo, não em números mas em margem. Em mais alguns anos a MS terá de oferecer o Office como um serviço pela web e não mais em caixas. E boa parte de sua margem vai sumir.


A questão é que a divisão Windows é muito forte dentro da MS e pode se dar ao luxo de ditar a forma como as coisas vão acontecer. Mesmo desistindo da estratégia de Windows em qualquer lugar e oferecendo Linux em sua nuvem fica claro que ter Windows nos telefones e tablets é uma decisão corporativa acima de qualquer discussão. Entretanto a falta de prazo e de uma estimativa de custo na apresentação do Surface e a similaridade com a apresentação do iPad mostram que a empresa está mais longe do que quer do que faz crer.


Eu criaria uma nova divisão dentro da empresa e pediria aos meus engenheiros "estamos entrando em um mundo novo, que não conhecemos, comecem tudo do zero. Esqueçam tudo que já fizemos até hoje". E começaria do zero mesmo, inclusive com um novo nome.

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Comments:
Concordo em tudo. Seus posts são realmente muito bons! Parabéns.
 
Parabéns pelo artigo.
 
Um sopro de ar fresco/O velho erro se repete

O legado foi posto fora no Windows RT (para a arquitetura ARM). Não existirá compatibilidade com aplicativos Win32/x86 nele.

O "começar tudo do zero" foi feito: chama-se WinRT, o novo modelo de programação inaugurado no Windows 8. Recomeçar *tudo* do zero é inviável. Eles pegaram o kernel NT, que vem sendo tunado há décadas, tiraram (na versão ARM) boa parte do espaço de usuário (planejado há vinte anos atrás quanto touchscreen, baixo consumo de energia, era ficção científica -- Win32) e colocaram um novo no lugar.

Eu detesto a interface Metro no desktop, mas vejo que o objetivo da Microsoft está delineado: WinRT em tudo. No Windows Phone 8 eles unificarão a base para o NT/WinRT também, o que dará uma vantagem estratégica boa caso a Microsoft consiga emplacar o Windows 8, pois desenvolvedores poderão ter um mesmo aplicativo compatível com o Windows 8/Windows Phone 8 sem modificações.
 
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